Itu, 21 de agosto de 2009
Ao militante Fernando Gonçalves.
Diante do monumento de madeira semi-circular, como se uma nave dessas de igreja. Em seu centro ergue-se um trono amparado por outros dois menores situados a sua direita e a sua esquerda. Contornando a escultura em semi-círculo, cadeiras habitam em suas beiradas. A construção assemelha-se a um templo, e não deixa de ser na verdade. Embora não o templo do povo como deveria, mas sim o templo de poucos. Sentado nesse trono central, a figura do supremo presidente da Câmara de Vereadores de Itu.
Diante dele, separadas por uma pequena bancada e uma portinha, há fileiras de cadeiras diminutas donde sentam os súditos, estes ficam em posição inferior, sem direito a fala, apenas resguardam o direito de sentar e ouvir a sessão. A esses súditos não se reservam grande número de assentos, afinal, são poucos os camponeses que podem abrir um hiato em sua labuta para contemplar, de forma passiva, o Soberano Presidente e seu séquito de vereadores às duas horas da tarde de uma segunda-feira.
E é justamente diante dessa construção de madeira que um desses súditos resolve se levantar. Ergue-se como gigante, não tem medo, não há porque ter medo. O Soberano fica assustado, ao topo de seu trono inconformado tenta calar a voz indevida desse súdito maltratante. Quem ele pensa que é afinal!? Mas o homem abre a boca e se faz a voz. Ecoa pelas paredes, é alta e clara e bela. Atrás dela, vem amparada pelo tomo sagrado, tomo distante que o soberano talvez nem se lembre mais, um texto longíncuo de 1988 chamado de Constituição Nacional Brasileira. A sessão é interrompida, aos demais súditos só lhes resta ver a balbúrdia, nada podem fazer, pouco conhecem o texto daquele sagrado tomo. O seu conteúdo lhes é negado, pois lá podem declamar os versos mágicos que os transmutam de súditos a cidadãos.
Um disparate isso que é! Pensa o Soberano. Como ousa um Homem cuja construção daquele templo só foi possível com o seu suor, cujo mandato daqueles vereadores só exisite devido ao seu voto, como ousa este reclamar o direito constitucional de falar em público, em uma casa pública, diante de seus servidores públicos?! É rebeldia demais! Diante de tal afronta, o Soberano convoca sua tropa. Dois guardas do reino adentram o templo para retirarem o súdito rebelde. Súdito perigoso esse! pensam os guardas, carrega consigo arma poderosa, a arma do conhecimento, arma essa que ninguém pode lhe tirar sendo incapaz de se encontrar desarmado. O Homem resiste, usa o tomo da Constituição como escudo na mão esquerda e empunha seu saber com a mão direita. Há conflito, mas as tropas do Soberano triunfam. O Homem, finalmente, depois de muito lutar, vai ao chão, sua voz se cala. A voz de povo se cala. O tomo da Constituição é fechado e levado a prisões distantes, para ficar lá e nunca mais ser usado.
Naquela sessão da Câmara de Vereadores de Itu ocorrida no dia 17 de agosto às duas da tarde, um homem foi detido pelos policiais. Cometera o grave delito de falar dentro da Câmara. Privilégio esse reservado apenas aos vereadores. Cometera o grave delito de usar aquele prédio público. Não o prenderam nem pelo conteúdo de sua fala, pouco importa, basta que fale, deve ser detido, como um cão, como um camponês.
Naquela sessão da Câmara de Vereadores de Itu, Fernando Gonçalves foi detido pelo grave delito de ser cidadão.
Assinado
RM
Militante

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