Flecha de Luz

Recall divino

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Está nas Escrituras, com estas palavras: no princípio, Deus criou o céu e a Terra, e depois a luz. Chamou a luz de dia, e as trevas de noite. Meio óbvio, não? Por que chamaria a luz de noite e a escuridão de dia?

    Em seguida, separou a tarde a manhã. A pausa para o almoço e a sesta foram criadas por nós.

    Depois, Ele criou um firmamento no meio das águas. Separou águas de águas, chamou o firmamento de céu, o elemento seco de terra, e o encontro das águas de mares.

    Ainda bem que foi no segundo dia, em que Ele estava ainda concentrado, que colocou o céu e os mares em seus devidos lugares. Imagine colocar o céu nos mares, e os mares no céu?

    Nos dias seguintes, Ele produziu a relva, as ervas que dão semente e as árvores frutíferas. Criou as estações, os dias e anos. Fez também as estrelas, os cardumes de seres viventes, as aves acima da terra, e abençoou, ordenando "frutificai e multiplicai-vos". Garanto que muitos apressados e curiosos já estavam se multiplicando antes de serem criadas as estações.

    Deus criou o gado, os animais domésticos, os répteis, os animais selvagens e, exausto, só no sexto dia, criou o homem à sua imagem. A ordem da criação é textual. Está escrito: lagartixas, cobras e sapos foram criados antes da gente.

    Ele nos abençoou e repetiu "frutificai e multiplicai-vos, enchei a Terra". E ainda ordenou "dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a Terra".

    Valeu, Deus. Tivemos então de ir à luta, colocar a mão na massa e inventar o fogo, a roda, o arado, a vara de pescar, o anzol, o fogão, a panela, o azeite, o caldo de carne e de frango, a mistura, o ketchup, o prato, os talheres, o guardanapo e a etiqueta. E, para encher a terra, o casamento. Deixou o mais difícil para os simples mortais.

    *

    Deus nos fez com muita pressa; em apenas uma tarde. Sem contar que nos projetou só no fim do turno de seis dias. Há muitas partes do corpo e da alma do ser criado à Sua semelhança que aparentam ter defeitos de fabricação e mereciam um design mais funcional.

    Para que sisos, vesícula, divertículo, hemorróidas, pêlos nas orelhas e cera de ouvido? Para que caspas, gases, pedras nos rins, joanetes, calos e unhas encravadas? E de onde Ele tirou a idéia de criar estrias, culotes, celulite, rugas e flacidez, só para afligir as mulheres? E a miopia, a gaguez e, a mais estúpida de todas as suas criações, o soluço?

    Deus poderia imitar a indústria automobilística, que anuncia com freqüência campanhas para chamar clientes para corrigir defeitos de fabricação de seus veículos e substituir componentes que podem causar danos ao produto, os recalls - eficiente peça de propaganda e marketing das montadoras, que evitam processos de compradores e órgãos de defesa do consumidor.

    Elas têm como norma trocar gratuitamente as peças que ameaçam a segurança e o conforto do condutor.

    Pois o Todo-Poderoso poderia instalar airbags em nossas pélvis e culotes, para evitarmos trombadas no metrô, capacetes acoplados, para não quebrarmos a cabeça em gangorras, pára-choques reforçados, em caso de atropelamentos, e luzes de alerta, como a que inventou para os vaga-lumes.

    Poderia nos instalar chifres, para pendurarmos casacos, guarda-chuvas, cabides, papéis importantes e chaves. Garçons poderiam enfiar as comandas e as contas em nossos cornos, e as mulheres, as bolsas.

    Poderia nos instalar joelhos retráteis, para evitar contusões nas peladas. Com visão noturna, para economizarmos energia. E poderia afinar para sempre as sobrancelhas femininas, aumentar os lábios e criar válvulas que aumentassem e diminuíssem os seis delas.

    Poderíamos vir com códigos de barras, para não precisarmos carregar tantos documentos.

    Só neste ano, no Brasil, mais de 800 mil proprietários de veículos já foram convocados pelos fabricantes para consertos. Uma das explicações é o incrível aumento da produção automobilística, causado pela demanda e crédito fácil.

    O recall divino está mais que na hora, já que a humanidade chega a impasses que resultam em dúvidas niilistas, como se Ele está vivo ou morto, e a demanda agregada é enorme.

    *

    Dados indicam que as montadoras fabricam apenas 25% das peças, e que o resto vem de terceiros. Reduziram os custos, o que resultou na perda de qualidade.

    Não há informação de que ele tenha terceirizado os serviços da linha de montagem humana. Aparentemente, nos fez na solidão de Seu ateliê. Também não há informações de que órgãos de defesa do consumidor se mobilizam para entrar com uma ação coletiva de perdas e danos contra o Senhor dos Céus.

    No entanto, a prova de que nascemos com defeito de fabricação e que atravessamos milênios sem encontrar respostas para perguntas tão triviais como "de onde viemos, para aonde vamos e existe vida após a morte?".

    Deus poderia trabalhar melhor o nosso órgão mais rebelde, o cérebro, deixá-lo programado para agir com calma em situações de conflito. O boot humano, às manhãs, carregaria um sistema operacional que instala noções de ética, francês, xadrez, jardinagem, boa educação no trânsito e culinária mediterrânea. Não é justo um recall?

 

Marcelo Rubens Paiva

Jornal O Estado de S.Paulo, 12/07/08, Caderno 2, pág. D12

 

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