Flecha de Luz

Um desfavor ambiental em SP

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Capa da CartilhaUma análise ecopedagógica caipira da Cartilha Criança Ecológica - Sou dessa Turma! proposta e distribuida pela Secretaria de Meio Ambiente como ferramenta para alcançar pontuação em EA no jogo do ranking dos Municípios Verdes, a política ambiental descentralizada como diz o site do Programa¹.

O que é?

Criança Ecológica é o programa de educação ambiental proposto pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo focado em alunos do Ensino Fundamental I - 8 a 10 anos.

O programa foi incluído nas políticas ambientais do Estado de SP através do sistema de pontuação do Projeto Município Verde como uma das metas a serem alcançadas pelos municípios, pontuando na diretiva Educação Ambiental.

 

Como funciona?

Aparentemente esta é uma iniciativa isolada da Secretaria Estadual de Meio Ambiente pois não consta (na cartilha e no site) nenhuma indicação de reunião ou planejamento de governo com todos as outras Secretarias Estaduais. Isso fere a visão proposta de educação pela Ecologia, pela Agenda 21 Local e Global, Carta da Terra, Tratado de Educação Ambiental para as Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, entre outros importantes instrumentos democráticos de gestão do socioambiente.

O programa é articulado pelos interlocutores municipais que se encarregam, em nível local, de viabilizar a implantação do Criança Ecológica no plano pedagógico das escolas cadastradas. Fato é a pressa, ausência de consulta prévia com cidadãos, movimentos sociais, redes e coletivos gestores socioambientais.

5 Agendas AMbientaisOs municípios inseridos no programa recebem como base de apoio um site ( www.criancaecologica.sp.gov.br ), pólos de visitação em parques e UCs da região metropolitana e o recurso pedagógico da cartilha - “Criança Ecológica, sou dessa turma”, escrita em co-autoria pelo Secretário de Meio Ambiente Xico Graziano e sua esposa Mônica de Lima.

A cartilha tem 100 páginas amplamente ilustradas, é confeccionada em papel coche de dimensões 21X21 e apresenta cinco agendas ambientais (água, flora, fauna, poluição e aquecimento global) anunciadas por cinco crianças dotadas de super-poderes em defesa do meio ambiente, a turma do Criança Ecológica.

Em suma: esta cartilha serve como orientação à participação d@ jovem alun@ no Programa que a partir dela aprende sobre o Meio Ambiente. O professor deve cadastrar sua turma em uma visitação a locais previamente agendados e pronto!

 

Os personagens

 

Sumiu o Capitão Planeta, começaram os problemas

Além da apresentação das agendas ambientais a turma do criança ecológica (Bob água (água), Frida Flor (Flora), Fred Fauno(fauna), Max Limpo (poluição) e Nika Valente (aquecimento)) precisa vencer os vilões da natureza: Dick poluição, menino lixo e Poli Vigarista: lixo eletrônico. Repleta de jogos e charadas, interage com o aluno impondo padrões de comportamento social quanto ao uso correto dos recursos naturais.

Desnecessário dizer o quão prejudicial é a utilização de padrões norte-americanos de super-heróis como os salvadores de nosso futuro. Não há dúvida que o Capitão Planeta (desenho animado eco dos anos 90) foi uma fonte de inspiração para os autores. Neste link temos uma opinião que referenciamos como transversal de Barbara Pyle (co-fundadora da Fundação Capitão Planeta) sobre o que a mercantilização do superherói ambiental tem gerado de lixo, quinquilharias.

O conteúdo da cartilha se expressa de maneira confusa e distorcida da realidade da biodiversidade brasileira, principalmente com relação às agendas de Fauna e Flora, predominando nas ilustrações e textos animais e vegetais de origem exótica.

A girafa na Floresta atlântica

A zebra Imigrante

A agenda de Fauna é ilustrada predominantemente por animais como a naja, leão, rinoceronte, canguru, rato, vaca, cachorro, zebra, dinossauro, e girafa. Em contraposição, o único animal silvestre citado com foto em toda a cartilha foi a ema, em conjunto com avestruz para exemplificar aves que não voam.

Na agenda de Flora arroz, feijão, banana, uva, mamão, abacate, pêssego, manga, laranja, maçã e flor de java aparecem ou são citados. Porém nenhuma árvore de Mata Atlântica, Cerrado ou da Zona Costeira é citada em toda a cartilha. Em tempo, a Zona Costeira sequer é listada como um bioma brasileiro.

Todas as personagens, humanas ou não, apresentam expressões caricaturizadas dos seres humanos, possuem sentimentos e desejos humanos. Em um dos quadros um leão lambe os beiços e manipula ansiosamente um hamburger de coelho.

Em outro quadro, as crianças vilãs aparecem em fotos num cartaz de “procurado” por práticas de “crime contra os rios e os mares: jogar por aí sacolas, latas de refrigerante, óleo de fritura na pia da cozinha, usar muito detergente na hora de lavar a louça ...”.

Temos os aquíferos como "esconderijo" de água, insetos que geram filhotinhos, detalhes sobre a maior flor do mundo (que é de Java) e a frase "o solo é o local de terras onde as árvores afundam suas raízes". Enfim, uma série de equívocos pedagógicos totalmente desconectos dos conceitos atuais de sustentabilidade e visão sistêmica.

Também consultamos gráficas de renome e serviços prestados ao mercado público a fim de analisar os custos do material utilizado para a cartilha, requerendo um orçamento para um produto com dimensões e característiscas semelhantes a distribuída pelo Estado. Uma alta quantia nos foi a resposta e quando questionamos o porque dos altos valores o funcionário afirmou que "o valor do produto é absurdo por causa dessas perdas de papel e pelo tipo de material, qdo o produto é cochê... ele tem uma taxa de 27,5% de média de perda na finalização do produto".


As coisas boas

Contra o desmatamentoNenhum tudo é canivete nesta chuva de inovações conceituais. Há de se destacar que é interessente a iniciativa de forte investimento financeiro em ações de EA no Estado, face a vontade política desenvolvimentista motivada pelo PAC e os biocombustíveis pré COP 15.

 

Alguns dos superherois também deixam boas mensagens, incentivando prioritariamente as pequenas ações diárias de um jovem da turma ambiental! Mesmo em alguns momentos onde a defesa de hidroelétricas, latifundios e outros sistemas destruidores é nítida encontramos frases diretas sobre a importância sobre a preservação ambiental. Cabe ao jovem exerce seu poder de escolha.

 

 

 

A Cartilha na Política Estadual de EA

Enquanto nossos investimentos públicos em Educação Ambiental caminham na contramão do design publicitário sustentável o governo estadual continua imbatível na quantidade de recordes de veto em suas políticas, ultrapassando o recorde do governo Alckmin em vetos a leis construídas pela sociedade e aprovadas pela Assembléia Legislativa, tal como lei 12.780/2007 da Política de EA, ao Projeto de lei nº 326 que trata do aquecimento solar elétrico, entre outros.

A produção desse material e a maneira como se insere no cenário das políticas públicas de Educação Ambiental para o Estado de São Paulo causa preocupação quanto às expectativas da população responsável e que acompanha as deliberações, desde que foi aprovada no primeiro semestre de 2009. O Projeto de Lei foi aprovado com vetos em artigos que definem a Educação Ambiental como tendo caráter transversal e interdisciplinar, sob alegação de inconstitucionalidade. Há outros vetos importantes como o que dispõe sobre a criação de uma comissão de acompanhamento para a efetivação da política.

Às vésperas do VI Fórum Brasileiro de EA é necessário refletir se o tipo de Educação Ambiental que os governos conseguem incorporar em suas agendas é condizente com os princípios defendidos e os avanços conquistados pelo movimento ecológico desde a Eco 92.

Mais fotos críticas da cartilha clique aqui!

 

Saiba mais

1- http://www.ambiente.sp.gov.br/municipioverde/

 
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